[Projeto EXPRESSÃO] A Cultura Racional do Tim Maia

Pierre Deval

Capture d’écran 2015-08-14 à 09.43.39 A Cultura Racional é uma seita brasileira criada em meado dos anos 1930 pelo guru Manoel Jacinto Coelho. Essa seita é derivada da Umbanda, uma religião afro-brasileira que se desenvolveu muito na região do Rio de Janeiro.

Os seguidores da Umbanda e das outras religiões afro-brasileiras foram perseguidos durante o período de 1930 até 1945 por causa dessas religiões sendo visto como baixo espiritismo e atrasadas. Para fugir essa perseguição é ser aceitado, principalmente para a classe media urbana, alguns pessoas passaram por um procedimento de desafricanização e branqueamento da religião Umbanda. Esse procedimento foi baseado sobre a criação de uma doutrina e de uma base de conhecimentos escritos para tentar de criar um legitimação racional da religião.

Neste contexto Manoel Jacinto Coelho criou a Cultura Racional quando publicou o seu primeiro livro “Universo em Desencanto: Imunização Racional”. Esse livro foi usado depois como a base da doutrina da Cultural Racional.

Tim Maia foi iniciado pela Cultura Racional em Julho de 1974 por acaso quando ele achava o livro do Manoel Jacinto Coelho na casa de um amigo. Ele leu o livro e estava imediatamente totalmente tomado pela doutrina da Cultura Racional. O dia seguinte, ele chamou seu guitarrista e lhe contou que:

Nós somos originários de um planeta distante e perfeito e estamos na Terra exilados. Aqui, nós vivemos na animalidade, sujos e magnetizados, sofrendo nesse vale de lágrimas. A única salvação é a imunização racional, que se conquista lendo o livro e seguindo seus ensinamentos. Só assim podemos nos purificar e ser resgatados pelos discos voadores de volta a nosso planeta de origem: o Racional Superior.

O amigo do Tim Maia lhe levou para encontrar Manoel Jacinto. Tim Maia conversou com “o maior homem do mundo” e juntos leram o livro. Após um longo período de doutrinação na casa de Manoel Jacinto, Tim Maia voltou para São Paulo um novo homem. Limpou o visual, raspando o bigode e cortando o cabelo. Começou a se vestir apenas de branco. Parou também com seus prazeres preferidos, drogas, bebidas e sexo e adotou uma dieta rigorosa.

A perda de peso e a interrupção de hábitos nada saudáveis fizeram com que Tim Maia atingisse sua melhor forma em anos. Estava mais magro e cantando melhor do que nunca.

Neste época, Tim Maia estava produzindo seu novo disco. As músicas estavam prontas, quase todas as bases gravadas. Faltavam apenas a finalização das letras. Tim Maia arrumou a letra de “Que Beleza” para que os versos tivessem referencia a Cultura Racional. Depois ele levou a letra para Manoel Jacinto. Enxergando a grande visibilidade que a canção traria para a Cultura Racional, Manoel Jacinto incentivou Tim Maia a mudar todas as letras do disco.

Todas as músicas de Tim Maia Racional contém elementos do livro Universo em Desencanto. Algumas dizem que o livro é a resposta, a grande maioria tem a frase “leia os livros” e a melhor faixa dos dois volumes mostra a mea culpa de Tim Maia e o descobrimento da Cultura Racional. A letra de “Bom Senso” é um bom exemplo:

Já senti saudade / 
Já fiz muita coisa errada
 / Já pedi ajuda
 / Já dormi na rua
 / Mas lendo atingi o bom senso
 / Mas lendo atingi o bom senso
 / A imunização
 Racional

Tim Maia era tão tomado pela Cultura Racional que mandou copias do “Universo em Desencanto” em português e do álbum Tim Maia Racional para James Brown, Curtis Mayfield e John Lennon. A lenda diz que recebeu como resposta uma fotografia do ex-Beatle inteiramente nu, com um bilhete: “Dear freak,
I don’t understand Portuguese. What about you LISTEN to this photo?
John Lennon”.

Quando os discos chegaram nas rádios, ninguém entendeu nada. “Que Beleza” obteve um pouco de sucesso mas o resto do disco foi ignorado. A crítica criticou o disco e as lojas não compraram cópias. No dia 25 de setembro de 1975, Tim Maia teve uma discussão com Manoel Jacinto e saiu revoltado. Ele voltou para o seu apartamento furioso, foi para a janela e começou a gritar para a rua, em volume máximo, que Manoel Jacinto era um ladrão que roubou todo mundo.
Depois da desilusão, Tim Maia sempre pareceu sentir muita vergonha do período Racional, renegando o disco Tim Maia Racional. Não importava que as músicas fossem maravilhosas, que ele estava em sua melhor forma. Aquele era um episódio de sua vida que não deveria nunca mais ser revisitado.

Poucos anos após o falecimento do Tim Maia, o álbum Tim Maia Racional foi eleito pela edição brasileira da revista Rolling Stone como sendo o 17º álbum mais importante da história da música brasileira.

Gostou da história do Tim Maia? Para começar a descobrir a discografia deste grande cantor brasileiro, selecionamos algumas de suas famosas canções. Até a próxima postagem.

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