[Projeto EXPRESSÃO] Não tem nada que mate mais o riso que a sua explicação, a não ser que…

Charles Stefani

É a historia dum rabino que sai da sinagoga, e enquanto estiver caminhando segue pensando em agradecer a Deus por ele nascer no seio do povo eleito, por ter lhe dado a fé, por escolhê-lo para fazer os rituais. Diz a Deus todo o amor que tem para Ele. Mas, está pensando tanto em Deus que não presta atenção aonde caminha e cai na ravina. Durante a queda, consegue se pendurar num ramo. Mas vindo o vazio tem muito medo e grita: “Tem alguém?, tem alguém?”. Porém só tem silêncio. Pergunta algumas vezes mais e de repente uma voz profunda que vem de muito alto diz “Oh meu filho, ouvi a sua chamada, não tenha medo e solte esse ramo, o meus anjos vão agarrar você e pô-lo devagar no chão”. O rabino olha uma vez mais o vazio e pergunta: “Tem alguém mais?”.

O riso é o próprio do homem, dizia Rabelais. Pois duvido que seja uma ferramenta essencial para a sobrevivência e reprodução do homem embora alguns digam « mulher rindo está meia na cama », porém é uma ferramenta essencial para a felicidade. Não acho que uma pessoa possa estar triste no momento que esteja rindo. Porém o riso é algo complicado porque se todos os homens riem, nem todos vão rir das mesmas piadas. Então não tem, de momento, uma fórmula mágica que explique como fazer piadas boas, mas pode ter algumas explicações sobre os bons ingredientes para fazer algumas piadas, e esses ingredientes sim que são universais.

O inimigo do riso

Pois primeiro, uma piada pode ser engraçada com a condição de que o seu principal inimigo não esteja: a emoção. Uma piada funciona se é contada sem provocar simpatia, temor o piedade pela pessoa da qual se está zombando. Por exemplo, Stephane Guillon, humorista francês (embora nem todo mundo concorde nesse título), errou fazendo uma piada uma hora depois do acidente do avião da German Wings que se esborrachou nos Alpes. Que sua piada fosse engraçada ou não, em todo caso era cedo demais, ainda tinha muita emoção.

Mas se você joga a emoção de qualquer situação, vai poder ter um olhar muito diferente que no final vai poder ser engraçado. Por exemplo: Uma pessoa pode ser muito preocupada quando vê uma pessoa que se colide com uma porta transparente, porém se no final não tem nada grave, não acho que ninguém possa resistir de rir.

O simplesmente, imagine um salão de dança. Normalmente tem algo de emoção. Agora, desligue a música na sua mente e olhe a mesma cena, a emoção se vai e suponho que as mesmas pessoas vão ter algo de ridículo que pode ser bem engraçado.

A função social do riso

Uma piada pode ter uma função social: primeiro é quase impossível fazer uma piada sozinho. Precisa-se compartilhar uma piada. As pessoas riem mais numa sala cheia do que numa sala vazia. A função social reside no fato que costuma se rir dum comportamento que não é conforme as normas da sociedade.

Porém o grupo tem um limite, você pode rir se for desse grupo, senão talvez você não compreenda por que é engraçado. O grupo pode se limitar num país que tem uma cultura própria. Uma amiga me contou que tentou contar a seguinte piada na Mongólia: “Vocês sabem por que as pessoas que fazem mergulho com garrafas se jogam por atrás e não por diante quando saltam do barco?

Porque senão cairiam no barco em vez de cair no mar.” Achava essa piada muito engraçada, porém ela me explicou que ninguém riu na Mongólia, não estavam acostumados com histórias digamos absurdas.

A mecânica do riso

Porém no final de que se ri? Pois evidentemente se ri de muitas coisas, porém o filósofo Henri Bergson tentou identificar algo em comum nas piadas. Para começar, ele diz que não tem nada cômico fora do que é propriamente humano. Uma paisagem pode ser bonita, graciosa, assombrosa, insignificante ou feia mas não dá para rir a não ser de que as nuvens tenham uma forma humana. Vamos rir dum animal porque vemos um comportamento humano nele. Vamos rir dum chapéu pela forma que terá dado os homens.
Depois, Bergson diz que se pode rir das atitudes, gestos e movimentos do corpo quando esse corpo nos faz pensar numa simples mecânica.

Imagine um orador que fala muito tempo. De repente você vai perceber que ele tem um movimento, um gesto que se repete. Se você joga a emoção da situação e se centra nos seus gestos e que quando você o espera o orador faz esse movimento, você vai rir. Por que? Porque você está diante dum mecanismo imitando a vida.

Mas o melhor exemplo é o rei Charlie Chaplin no filme “Os tempos modernos” onde depois de fazer tantas vezes o mesmo gesto na cadeia de fabricação pois termina bloqueado como se ele se tornasse numa máquina.

A mecânica não só se limita no aspeto visual, também pode aparecer numas palavras. As palavras seguintes são dum deputado o dia depois dum crime cometido num trem: “o assassino, depois de matar a vítima, teve que baixar do trem no sentido errado, em violação das regras administrativas”. Ai se vê claramente o automatismo da situação que gera o riso.

A sua fórmula de mecânicCapture d’écran 2015-08-14 à 10.29.38a posta sobre algo vivido também se vê quando se fala duma natureza falseada: em 1999 teve uma eclipse total do sol pela lua, mas se precisava levar óculos para ver esse espetáculo sem perigo. Todo mundo procurava os óculos mas não tinham bastante. Então o avô duma amiga disse: “Pois se não têm bastante óculos vão cancelar a eclipse”.
Nessa lógica de mecanismo, também se ri muito das pessoas que parecem às coisas. Por exemplo, o pai duma família queria se assegurar que tinha tudo preparado antes de viajar e que não esquecia nada: “Quatro, cinco, seis malas, a minha mulher sete, a minha filha oito e eu nove, tá bom!”

A mecânica também funciona bem no caso que todo mundo conhece: o caso da bola de neve que a partir de quase nada, começa a rolar e leva com ela tudo o que está no seu caminho devido a um mecanismo do movimento permanente dessa bola. Pode ser o caso por exemplo duma carta que você quer recuperar a todo preço pela sua importância. Mas essa carta lhe escapa todas às vezes que você pensa que já a recuperou e no seu caminho provoca problemas todas às vezes mais graves ou inesperados.

Nessa mecânica, se pode usar ferramentas como por exemplo a inversão. Consiste em inverter uma situação mecânica esperada. É o caso das crianças que pretendem dar um lição ao seus pais, é o caso dum advogado que ensina a seu cliente um truque para enganar o juiz e no final o cliente usa esse truque para enganar o seu advogado, ou é o caso duma mulher muito exigente com o seu marido que lhe pede fazer muitas coisas e vai escrever sobre um quadro tudo o que ela quer que o seu marido faça. Mas quando ela cai num poço  e pede ajuda a seu marido para sair, ele responde que isso não está escrito no quadro.

Pois isso é uma parte muito pequena da análise do riso e ainda tem muito por dizer porém já não tenho bastante palavras portuguesas para continuar. Mas mantive suficientemente palavras para terminar com uma piada da que gosto muito e que tem o mesmo objetivo de meu texto: acabar de forma feliz…ou não (recordo que a piada não tem ninguém espaço para a emoção).

Eu gostaria de morrer como o meu avô, tranquilamente dormindo, e sobretudo não gritando de terror como os seus passageiros.

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