[RELATO] Vida em São Paulo

O presente relato narra as impressões de Margaux GABARD sobre o seu estágio de estudos em São Paulo. Feito originalmente como trabalho apresentado no curso da Profa. Dra. Maria Célia Lima Hernandes, da Universidade de São Paulo, Margaux nos cedeu gentilmente o texto, para que futuros estagiários e eleitores do blog pudessem compartilhar de sua experiência. Obrigada à Margaux e boa leitura a todos!

Aspectos da Cultura Brasileira
Alegria e a Felicidade na Cultura Brasileira
Margaux GABARD

Viajar da França até o Brasil é uma viajem exótica e estranha. Em dez horas você troca totalmente de continente, de clima, de temporada. Você está desorientado quando você chega no aeroporto, tudo parece diferente: a luz, as pessoas, o ar, a paisagem. Depois de alguns dias no Brasil, você nota que tem uma coisa muito mais diferente que todas as outras diferenças entre a França e o Brasil: a marca da alegria na  das pessoas e o ambiente de alegria geral na maioria dos lugares.

Claro que eu posso falar só de o que eu conheço, nesse caso: São Paulo. Eu acho que a cidade na França que é a mais próxima de São Paulo, é Paris. As duas cidades tem uma população numerosa, uma população que trabalha muito mais em comparação com as outras cidades da Franca, e tem também uma densidade similar. Mas em Paris na rua as pessoas não sorriem. No metro, nas ruas, nos shopping, no restaurante… a única explicação que eu tenho é que o sorriso é um convite, uma abertura na intimidade das pessoas. De fato o ambiente na capital parece agressivo, ameaçador, numa palavra, não é benevolente. Os franceses tem a reputação de ser individualistas e isso não é um clichê. Por exemplo, se você esta perdido em Paris e pede informação sobre o caminho, as pessoas não vão responder, ou elas vão ser desagradáveis com você, de um jeito tão agressivo que você vai sentir se muito mal. Essa atitude não é a consequência do estresse, ou de uma vida complexa com problemas porque eu acho que os franceses tem tantos problemas quanto os  brasileiros. Mas o povo francês não é só individualista, egoísta, e incapaz de sorrir ou de ser agradável. Eu acho que antes de comparar como se exprime a alegria nesses dois países, tem que saber porque essa alegria existe nesse paés bem diferente.  A questão que dirige minha reflexão seria, porque e como se manifesta a alegria no Brasil e na França ?

No Brasil eu acho que tem muitas razões de ser feliz e de sorrir. Então isso é o ponto de vista da francesa que chega no Brasil há pouco tempo. Para mim, os brasileiros tem muita sorte porque moram em um país maravilhoso, com uma diversidade rara ao nível da paisagem, um país com regiões completamente diversificadas como se você estivesse em um outro planeta apenas ao sair de uma região. O clima é uma razão também para os brasileiros e os sortudos gringos que vivem no Brasil, no fato a luz é muito mais forte em comparação com a França, o céu parece sempre luminoso, mesmo se estiver nublado o que é impossível na França: quando está nublado não tem nenhuma luz e você fica depressiva. A tropicalidade também convida as pessoas a serem mais calorosas, mais despreocupadas, aproveitando os pequenos prazeres da vida cotidiana.

O Brasil tem uma diferença maior com a França porque esse país é o produto de uma mistura de quatro povos definidos por sua alegria: os Italianos, os colonizadores portugueses, os nativos indígenas e os africanos trazidos pelos portugueses. Na França não temos uma mistura como essa, e é uma mistura de povos europeus com hábitos e rituais mais frios, mais formais. Essa mistura daquela resulta o povo brasileiro, influencia as maneiras de viver dele, a maneira típica de falar com gestos é uma influência dos italianos, a proximidade com as pessoas é dos africanos, por fim uma solidariedade e uma devoção pelos outros que vem diretamente dos povos indígenas.

A gentileza das pessoas no Brasil e o habito de ajudar em qualquer momento, qualquer situação, isso foi o primeiro aspecto que se destacau durante meus primeiros meses no Brasil, isso não para de me surpreender a cada dia. A maioria das pessoas com quem eu me encontrei durante essa viajem são pessoas maravilhosas, prontas a ajudar sem esperar alguma coisa depois, prontas para debater, aprender dos outros, transmitir suas experiências e suas opiniões. Elas são interessadas ea tudo, pacientes com os estrangeiros com o problema inicial com a língua, com o sotaque francês por exemplo. Eles vão convidar as pessoas na sua casa para um jantar, para um churrasco etc. Tem no ambiente uma alegria e as pessoas não podem esperar para compartilhar esse sentimento. A gente não tem que ser rica ou ter uma casa muito grande, as pessoas tem um coração imenso e são impacientes de compartilhar um pouco de suas vidas com novos amigos.

Eu gosto muito dos animais então no Brasil eu sou a pessoa mais feliz do mundo. Na casa onde eu morei tem um cachorro muito lindo, meus vizinhos tem cachorros também, e gatinhos que pertencem a todas as pessoas na residência. O fato de ter animais na sua casa, é também um prova de alegria, isso traz uma boa atmosfera na sala de estar, quando você está triste ou com saudade de seu país, o animal sente isso então ele vai te fazer sentir melhor.

O carinho de um gato vai ajudar a descansar ou pensar sobre a sua viajem. Na França os animais suscitam mais medo, e desconfiança na maioria dos casos. No Brasil, eles são quase uma atracão para os turistas como esse pequeno cachorro no parque Ibirapuera com ao menos dez pessoas ao redor dela. Eles são um fator de comunicação porque a gente inicia a falar e rir: os animais são agentes de comunicação e de socialização.
Vamos falar agora de lugares onde a alegria se exprime, o melhor momento do dia para compartilhar coisas, descansar, falar de tudo e de nada, é quando a gente vai comer. Pode ser de manhã, durante meio dia e o jantar sobre tudo. Nas lanchonetes, nos restaurantes da universidade ou do centro da cidade, nas padarias, durante esses três momentos do dia, cada vez tem o ruído das discussões entre as pessoas, esses lugares são vivos e preenchidos de alegria. Minha visão das coisas pode ser um pouco ingênua mas eu acho que nos principais lugares onde eu fui, tinha alegria no ar.
Os brasileiros tem a vontade de compartihar sua cultura através da comida também porque isso é um aspecto da cultura muito importante. A diferença entre as comidas franceses e as brasileiras reside no fato que os ingredientes não são os mesmos, por exemplo quando eu chego no Brasil eu estava muito feliz porque na feira eu comprei frutas que eu tinia visto só uma vez na minha vida e na televisão! Tem uma convivialidade particular durante o jantar, tudo mundo fala com todos, ajuda a preparar a comida, ouvindo música, cantando: para mim esses momentos são alegria pura. Acho que a maneira de apresentar a comida influencia também essa imagem de partilha, porque todo mundo se serve na panela, não tem um prato para cada pessoa. No restaurante, precisamente na pizzarias, no Brasil você pede uma pizza para todos, para dividir enquanto na França você pede uma pizza para cada pessoa, então isso é muito individualista. Tem na França e no Brasil a mesma cultura do dia de domingo que é o dia da família, você vai fazer a comida todos juntos, mas durante a semana quotidiana isso não é realmente verdadeiro. Frequentemente os jantares acabam em festas, e as danças típicas do Brasil são um conite À alegria, ao forró, à gafieira, ao sertanejo. As músicas utilizadas para essas danças são hinos à felicidade e à despreocupação, então as festas onde você pode dançar, cantar são sempre instantes de êxtase e como momentos únicos e inesquecíveis.

O que eu prefiro nas festas em São Paulo são os momentos depois de uma festa, quando você anda nas ruas com o sol nascente, a cidade acordando, o ar fresco da noite, os momentos perfeitos são o pôr do sol e o nascimento do sol.  O risco nas festas em países estrangeiros é de sentir se sozinho, rejeitado, mais no Brasil eu nunca senti isso. As pessoas integram você de uma maneira natural, espontaneamente. O mundo da noite no Brasil é bem diferente do mundo da noite na França: as festas brasileiras são do mesmo jeito que as reuniões de pessoas durante o dia, todo mundo está agradável, fala com todas as pessoas na festa. Enquanto na França, durante o dia as pessoas são frias e individualistas e a noite elas se tornam mais extrovertidas, tem um disfarce entre as pessoas do dia, e as pessoas da noite: isso é uma mudança rápida e desestabilizante. No Brasil tem sempre uma pessoa unificadora, mas na França é mais raro esse tipo de pessoa.

Como as danças típicas no Brasil, a cultura brasileira é importante e muito completa. Em vários museus incríveis, com exposições magnificas, show de músicos famosos gratuito,  essencialmente em São Paulo porque acho que é uma cidade particularmente rica sobre a cultura. A maioria dos museus são  gratuitos, ou mais baratos para os estudantes, isso é um ponto em comum entre a França e o Brasil, os dois países são abertos sobre o mundo, as artes, as culturas dos outros países etc…
Tem muitas manifestações culturais na cidade, cada fim de semana sempre tem um evento original e muito simpático que você pode fazer com seus amigos, ou sua família também. Isso é uma das razões porque eu estava muito feliz em São Paulo, porque é uma cidade viva. A cultura do esporte é muito importante no Brasil e na França, sobretudo o futebol. Tem museus, lojas, visitas de estádio, jogo na televisão sempre. Esses dois países são fãs desse esporte. Tem várias noites de futebol, com o jogo na televisão em vários lanchonete, barzinhos, etc… No museu do futebol, podemos sentir a importância do jogo na vida dos brasileiros, que isso faz parte da história do país, vitórias são fatores de alegria, em alguns casos a derrota é sinônimo de tristeza.

A comparação entre a presença da alegria no Brasil e na França é bem interessante, isso  permite compreender as diferenças entre os dois países, os pontos positivos e negativos, as razões que os nossos povos tem para ser feliz. Eu aprendi uma coisa no Brasil, não é uma questão de  razões de ser feliz, é uma questão de maneira de ver a sua vida. Enfim os povos brasileiro e francês são povos de amor, de felicidade, e de alegria só as maneiras de mostrar sua alegria mudam entre os dois, por causa do clima, da cultura, da história. Para concluir tem uma  canção que  representa o que eu vou sentir quando eu vou voltar na França.

Canção do exílio

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em  cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores

Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

De Primeiros cantos(1847)
Gonçalves Dias

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